Relato Psicodélico: Cogumelos em Praia Deserta

Importante: houve uma preocupação enorme com relação a pandemia, muitas precauções foram tomadas e tudo aconteceu com um grupo muito reduzido de pessoas.

Local e preparativos

Fui convidado para participar de uma cerimônia psicodélica que aconteceria no interior de Ubatuba, na virada do ano astrológico, na entrada do outono.

Saí de São Paulo às seis horas da manhã em direção ao local onde esperávamos encontrar uma praia, mas o que vimos foi a entrada de uma trilha em meio a floresta. Uma longa e íngreme descida com um caminho de lama e raízes que faziam o papel de degraus. Era comum ouvir barulhos de malas caindo, me lembro da melancia que explodiu no chão para a alegria dos animais de lá.

Aos poucos por entre as árvores era possível ouvir o barulho do mar até que o azul cristalino foi tomando conta da paisagem, contornado pelo verde e padrões rochosos das montanhas e ilhas que cercam o local. A areia era branca e invadia o começo da floresta, neste limite entre ecossistemas algumas plantas cresciam, mas havia um lugar contornado e coberto por árvores, com apenas um espaço de areia no meio, cerca quatro metros de diâmetro. Era ali que tudo aconteceria.

Praia Brava do Camburi — Ubatuba

O ambiente foi cercado por velas, uma fogueira e um altar foram construídos no centro. Durante as próximas horas eu meditei sozinho e sentado nas pedras que ficavam em uma das extremidades da praia. Assim que anoiteceu os participantes foram chamados para o início da cerimônia.

Tudo começou com os avisos de segurança e regras para a condução dos trabalhos, por exemplo, não poderíamos sair do local sob o efeito dos psicodélicos sem acompanhamento dos auxiliares que ali estavam. Fomos convidados para nos apresentar e falar sobre nosso propósito de estar ali e algumas palavras foram ditas sobre o momento de começo do outono, onde folhas secas caem para dar espaço a novas, um momento de renovação. Era tudo o que eu precisava.

Chá de Cacau

A primeira medicina da floresta, assim chamada pelos praticantes, foi o cacau, considerado um superalimento por conter substâncias que ativam a parte do cérebro responsável pela felicidade e muitos outros nutrientes. E essa era a ideia, uma vez que psicodélicos intensificam sentimentos bons e ruins, começar com o sentimento de força e felicidade facilita o andamento dos trabalhos.

E eu estava ali por um motivo, tinham muitas coisas mal resolvidas na minha cabeça que estavam me prendendo em um ciclo vicioso de sofrimento. Então sob o efeito do Cacau, sentindo uma felicidade e força imensas, eu percebi que a energia de dor e tristeza que eu sentia, eram na verdade a minha própria energia, minha própria essência, que estava sendo direcionada dessa forma.

Então a intensidade que eu sentia naquela dor, era um potencial de sentir algo em uma outra direção. Essa percepção me deu força e confiança para continuar ali.

Cogumelos e o Sky

Após uma hora, mais ou menos, foi aberto trabalho com os cogumelos. Quando você toma, demoram cerca de 40 minutos para começar os efeitos mais intensos. Nesse meio tempo, ainda no efeito do cacau, eu resolvi pedir autorização para sair do círculo e olhar o céu, dado que o local onde eu estava era coberto por árvores.

E aquele foi o céu mais estrelado que eu já vi na minha vida, muitas estrelas, uma mancha branca cruzava a imagem, imaginei que poderia ser a via láctea, mas não tenho certeza. Bastavam alguns minutos para avistar ali uma estrela cadente e outra, eu fiz meus pedidos.

Foto ilustrativa

Conversando com um mexicano que ali estava, o Sky, como assim nomeei mais tarde, concluímos que tudo que vemos no céu são luzes das estrelas que chegam na nossa visão após muitos anos-luz, ou seja, o que estávamos vendo ali era um passado projetado, poderia ser que muitas daquelas estrelas nem existissem mais, ou que a luz de estrelas novas nem tivessem alcançado nossos olhos ainda. E será que isso não ilustra a vida de alguma forma?

Nossa realidade é uma construção de tudo que a gente pode lembrar, pode ser que pessoas que eu me lembro nem existam mais da mesma forma, lugares também. Já passou na rua da sua infância e viu tudo diferente? Então a nossa realidade está na nossa cabeça, não no mundo.

Senti algo diferente e resolvi voltar pro meu lugar, meus olhos se fecharam e imagens começaram a se formar. Mais ou menos assim, mas no meu caso era algo mais voltado pro verde:

Foi o mais próximo que eu achei, mas ilustra a ideia de que formas e cores com um certo padrão começam a se formar. E poderia não significar nada, mas nessa frequência que você se encontra, mais sutil, e conforme essas formas vão mudando, você observa que elas ilustram coisas sobre você.

Imagina uma imagem que representa um sentimento ou uma percepção. Ver esses elementos abstratos sobre você expostos assim, é algo muito revelador, porque te mostra de forma mais clara coisas que estavam ali o tempo todo só você não viu.

E como eu estava passando por um término de relacionamento, pude contemplar a própria essência da ideia de devastação. Revirando os escombros na ruína da minha mente, eu vi todas as bases e estruturas que formavam meus pensamentos. Navegando pela destruição eu encontrei, bem no centro, uma luz que queimava e brilhava.

Era minha própria alma, a fonte de toda a força e amor que eu precisaria pra me reconstruir quantas vezes fossem necessárias. Próximo dali estavam também algumas outras coisas que haviam restado em meio as cinzas.

Foi onde eu encontrei a dor, uma das questões mais latentes naquele momento. E eu sempre achei que sentimentos precisam ser sentidos para que possam ser superados, mas quanto mais eu olhava pra dor, mais ela crescia e me consumia. Eu entendi então que devemos reconhecer um sentimento e aprender com ele, mas existe um limiar onde ele começa a te consumir e deve ser substituído por frequências mais elevadas, só que naquele ponto eu não sabia exatamente quais e nem como.

Foi a parte mais difícil, com certeza, pois convergiu todos os meus problemas familiares da infância, meus relacionamentos mal sucedidos e o sofrimento que eu via em mim e no mundo. A imagem era mais ou menos assim, só que em um movimento muito rápido:

Representação própria da dor em forma de imagem

Depois de entender as origens desse sentimento, eu decidi que era a hora de deixar ele ir embora. Então eu abri meus olhos e fui em busca dos pilares que viriam a seguir.

Tabaco: o avô da floresta

Como fumo tabaco há muitos anos, naquele momento eu estava com muita vontade de fumar. A pessoa que estava conduzindo a cerimônia pediu para que eu não fumasse o tabaco como eu fumo normalmente, então me ofereceu um cachimbo que ali estava e iríamos fazer uma utilização do tabaco de forma sagrada, uma consagração.

Me foi ensinado que o tabaco é considerado o avô da floresta por muitas culturas antigas e é utilizado de forma ritualística, como uma entidade que possui seus próprios ensinamentos. A consagração acontece da seguinte forma: sem tragar, você puxa no cachimbo e direciona a fumaça em algumas direções com suas respectivas intenções:

Aí estavam os pilares que eu estava buscando para me reconstruir, todos esses elementos eram os primeiros a serem estabelecidos. Pensar nisso me deu força, eu tinha uma missão nesse mundo e precisava honrar as pessoas que me amam, que confiam em mim e eu mesmo, sem esquecer da importância do plano espiritual.

O tabaco que esteve presente na minha vida há tanto tempo de forma banal, seria agora a medicina responsável pelo começo da minha reconstrução. O avô da floresta tinha lições importantes pra mim. Fiz alguns desenhos na areia e segui em frente.

Sananga: os olhos da floresta

Depois de meditar algumas horas em silêncio e dançar em volta do fogo, assimilando as informações novas, recebemos o chamado para a próxima medicina: a Sananga. Colírio indígena que é pingado no olho e utilizado com o objetivo de fortalecer a visão, o trabalho acontece no que se enxerga principalmente em um nível mais abstrato e espiritual.

Você se deita, o colírio é pingado com os seus olhos fechados e você recebe a instrução de abrí-los, a ardência é forte e logo seus olhos se fecham.

"Tradicionalmente a Sananga é usada antes de uma caçada justamente com a intenção de deixar a visão afiada para identificar a caça.Porém, existe outro objetivo mais oculto.A dor e contração facial que a Sananga causa só é aliviada quando o usuário fica presente. É como na cena de fight club:https://www.youtube.com/watch?v=e_lSERfLMec" - Alexandre Porto

Depois de passada a dor, novamente algumas formas apareceram. Dessa vez elas não falavam sobre mim exatamente, mas ilustravam como eu via as coisas, era como ver a minha própria expressão.

Passando pela forma como eu me colocava, como eu via relações e validações, como eu via o mundo. Eu entendi que muitas vezes eu agi de forma tóxica sem perceber, que a minha visão estava deturpada por algo podre que existia em mim, algo que foi construído há muito tempo.

Também pude ver as minhas relações com mais calma e entendi que as pessoas têm seus próprios processos de evolução e momentos de aprendizado, como eu tenho. Niguém é perfeito, todo mundo está sujeito a errar pois faz parte desse processo.

E eu sempre acreditei que amar alguém é querer com todas as suas forças que essa pessoa seja feliz, independente de qualquer coisa.

E esse sentimento tem a sua importância, mas se mesmo com ele tantas relações tinham dado errado até ali, ainda faltava alguma coisa.

Então lembrei de algo importante que tinha notado há algumas semanas, por mais que eu sentisse que amasse as pessoas, eu não sentia algo parecido por mim mesmo, nunca foi algo que eu aprendi a cultivar.

Isso tornou a minha vida uma constante busca por preencher um vazio. Mas se esse vazio fazia parte de mim, fugir dele com coisas e pessoas, era uma forma de fugir de mim mesmo, e eu não queria mais fugir.

Era isso o que faltava. Eu acolhi esse vazio com as suas imperfeições e, nesse momento, eu percebi que o amor por outras pessoas é uma consequência, uma extensão do amor que você sente por você mesmo e pela vida.

O fim do ciclo e recomeços

Já era meio da madrugada, a Lua já havia se posto e o céu estava ainda mais brilhante. Novamente fui com o Sky observar o céu, vimos mais algumas estrelas cadentes. E ele disse:

“Concordo que a imagem que chega na gente é muitas vezes o passado, mas tudo depende do seu ponto de referência, certo? Eu poderia observar essas estrelas de outros pontos que não a terra. Isso significa que as pessoas têm uma visão da mesma realidade completamente diferente da outra!!”

Sim!! E eu me pergunto, quantas versões de mim existem na cabeça das pessoas por aí? Com certeza muitas!! Guiar a nossa existência esperando a validação das pessoas seria loucura, seria um trabalho impossível e infinito, talvez seja o que eu sempre fiz. Só a gente mesmo sabe pelo que a gente passou pra chegar no ponto que se está, ninguém mais pode saber quem a gente escolheu ser a partir daquele determinado segundo.

(Fun fact: Eu não falava espanhol e o Sky não falava português, toda essa conversa aconteceu em inglês, sempre dou risada lembrando desse momento)

Além disso, existia um sentimento em contemplar a beleza do céu, era algo verdadeiramente magnífico e colossal. A ideia de separação entre nós e a natureza não é real, nós também somos seres que a compõem, aquela beleza fazia parte de mim, ou eu fazia parte dela, no caso. Então desejar o melhor pro mundo também era desejar o melhor pra mim mesmo e pra todos os outros seres.

Conforme eu andava pela areia no limite da madrugada, notei que meus passos formavam pegadas em uma cor azul fosforescente, imagina o sentimento de euforia que emergiu. Mas como tudo estava muito profundo, aquilo me fez pensar que a beleza está por toda parte, a gente só precisa parar pra olhar. Além disso, quais são as marcas que meus passos vão deixar?

Foto ilustrativa

Mais horas se passaram na praia, apareceram alguns surfistas, eu não tinha dormido ainda, então meu corpo, minha mente e minha alma estavam no limite do que eu aguentaria receber. Esse foi um momento de contemplação e assimilação que durou algumas horas até o encerramento. Muitas outras informações surgiram, mas isso é um assunto dos próximos textos.

Na volta lá estava ela novamente, a trilha, mas dessa vez era uma subida íngreme e distante em meio a lama e raízes. Carregando algumas bagagens sob o sol escaldante, que as vezes era tampado por árvores, eu juntei todo o resto de qualquer energia que eu poderia ter naquele momento e andei um passo após o outro, eu caí e levantei algumas vezes, me segurei na floresta sempre que possível, até chegar no fim onde uma ducha gelada me esperava. Essa também era uma etapa do processo, dar tudo de si até o fim e esperar pelo melhor.

Cheguei na minha casa e dormi por muitas horas, quando acordei eu entendi que não seria mais a mesma pessoa, tudo tinha mudado.

Travelling the universe through the Soul 𓂀𓆃 | Psychonaut | Surfist | Investor |

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